sábado, 24 de maio de 2008

"As pedras também não são eternas"


Lançamento do primeiro livro de poemas de Viegas Fernandes da Costa não deixa dúvidas: ainda se faz boa literatura!


Quem já tinha lido Sob a Luz do Farol e sentiu-se satisfeito, ficará surpreso ao conhecer o primeiro livro de poemas do escritor Viegas Fernandes da Costa. Porque aquela prosa fragmentada de antes (não creio que conjunto de crônicas algum terá sentido maior do que a mão que as escreve) prepara o leitor para o que há de vir. E o que vem é este belo exemplar de “De espantalhos e pedras também se faz um poema”.

O poema, a meu ver, antes de tudo, é o próprio livro, o exemplar que se segura nas mãos. Impresso em linotipo, o volume, nas palavras do próprio Viegas, pretende afrontar o livros impressos na off-set, os livros “pós-industriais, pós-modernos, pós-livros”. Acontece que, conhecendo Viegas, pude logo ver que o que afrontaria seus leitores não seria o exemplar (o ferro, a tinta, a pressão sobre o papel). Quem afronta, realmente, é o poeta. Lá está.

“De espantalhos...” está dividido em três partes: O Livro das Pedras, Espantalhos no Deserto e Ecos de Mim. Lendo, relendo, passeando ou perdendo-se por estas páginas, surge a necessidade de revidar a insistência do autor em dizer que “não há uma unidade temática neste livro – não a procurem”; daí nós ignorarmos a recomendação e embarcarmos rumo à busca de uma unidade, uma significação para “De espantalhos...” que vá além da coletânea de poemas. Embarquemos!

O LIVRO DAS PEDRAS

Há em todo este livro uma grande necessidade de chocar, pôr o leitor contra a parede e exigir deste um ato, um gesto, uma resposta. Desde o primeiro grito, quando o poeta divide sua angústia com “AS PEDRAS TAMBÉM NÃO SÃO ETERNAS”, o leitor começa a envolver-se com um mundo que não é literário, imaginativo ou idealizado. É este nosso mundo que encontramos nos poemas de Viegas. E talvez seja por isso que não consigamos sair ilesos.

O Livro das Pedras é uma surpresa. Não somente pela unidade do tema (lá no título já nos é avisado, na verdade), mas por ser breve e direto, como em “A pedra no meio do rio, afronta / como pedra no meio do rio, / em silêncio, o tempo e as águas”. Novamente, o poeta é bondoso conosco, ingênuos leitores, e há novamente a preparação para o que há de vir. Coitados, o que seria de nós ao entrar despreparados em Espantalhos no Deserto.

ESPANTALHOS NO DESERTO

Rápido, é preciso ler rápido. Leitor, não brinque por estas páginas, senão a realidade acaba batendo à tua porta e tu te mijas todo! Já tinha lido assim em Murilo Mendes, talvez algo em Vinícius-poeta, e só não fiquei muito feliz por ter lido em Viegas poemas tão cruéis, porque a felicidade não pode acompanhar uma leitura de Instantâneos, Canto Guajira, 1964 ou Quem Plantou os ?Cem Plantou os ?C tVinnr a textura, o gosto das pedras; ouve-se aliCogumelos?. Não. O que se vê por aqui é justamente um contato com o mundo caduco, cruel, triste, revelado pela sensibilidade de quem consegue tornar em poema aquilo com o que sequer conseguimos manter contato.

Para não dizer que Espantalhos no Deserto é somente estupor, susto e azia, lemos ali o antológico Impressões do Vale. O poeta, desta vez, analisa a vida em uma cidade que poderia ser qualquer uma, desde que cortada por um rio qualquer, um “rio que zomba delas, / a veia de merda que vaza / do leito que não dorme. Conseguimos nos enxergar ali? Todo o tempo! Seja na figura da moça fiandeira, nas formigas que “todos os dias, em carreiras, enchem os ônibus”, naqueles que “invejam o ócio que reprimem com bocejos de cansaço”. Sim, podemos nos ver todo o tempo ali, todo o tempo, e não temos a menor vergonha por isso.

ECOS DE MIM

O que lemos em Ecos de Mim, capítulo que fecha o livro, é justamente a abertura. O poeta, de peito aberto, entrega-se em poemas intimistas. Adultos, infantis, o poemas de Ecos de Mim põem-nos a dois passos do Viegas que compõe versos, mas esse encontro, o toque, não é possível, já que o poeta ou esconde-se nas sombras (Nas dobras das sombras) ou esconde-se dentro de si mesmo (Ecos de mim).

O que fica? Esta terceira e última parte de “De espantalhos...” já não é tão dura. O mundo, agora, não é o nosso, é o mundo do poeta. Contemplamos e buscamos compreender, queremos ajudar, ouvir o que mais aflige o compositor. O último capítulo bem poderia ser o primeiro. É leve, mesmo que tenha a mesma força dos outros dois cadernos. Não dá pra saber, por aqui, se conseguimos alcançar o sentimento que teve o poeta ao compor estes poemas. Nunca saberemos, e talvez seja esta a pergunta que ecoe: “Poeta, e agora?”.

Muito boa a leitura de “De Espantalhos...”. Confesso a surpresa boa de quem não esperava o que ler e acabou encontrando o que somente talvez supusesse: um poeta que não escrevesse sobre seu umbigo, como se acostumaram a fazer tantos, e que levasse a sério o ofício da escrita. Talvez seja esta a grande unidade deste livro: a seriedade. Sério como poucos, poeta como poucos, Viegas Fernandes da Costa mostra-se uma Polaroid por demais ciente do que significa poetar.

E a quem ainda não chegou a dura voz da realidade, ela esta ali, nas páginas rudes de “De espantalhos e pedras também se faz um poema”. Ouse ouvir, leitor, que depois a gente conversa.

sábado, 26 de abril de 2008

Das comédias (e tragédias) de publicar um livro


Daquela velha história de que um homem precisa plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, resolvi começar pelo fim. Pois que depois de algum tempo, de várias tentativas frustradas e desistências consecutivas, Falações, meu primeiro livro, será realmente publicado. É sobre isso — y otras cositas más — que falarei a seguir.


Sobre escrever o livro

Quando as pessoas que já sabem perguntam sobre o que será o livro — isso quando não emendam a pergunta com “sobre a história da tua vida?” — eu desconverso e explico: é um livro de poemas... de mau gosto. Claro que não. É um livro de poemas, ora! Mas quem sabe o que é isso, um livro de poemas? Então pra não falar de contemporaneidade, experimentalismo, psicanálise e tragicomédia, simplesmente digo que são poemas de mau gosto, mas mau gosto mesmo, onde se pode ler sobre incesto, estupro, falência múltipla dos órgãos. Pelamordedeus, que não quero afastar os leitores, mas levando em conta o tanto que se tem publicado e lido de material poético ginasiano (amor e dor, amor e flor), prefiro não decepcionar as pessoas.


Falações surgiu há uns três, quatro anos. Na época, pensava em inscrevê-lo como projeto do Fundo Municipal de Cultura de Blumenau. Passou o primeiro edital, passou o segundo e foi a vez de, no terceiro ano do Fundo, levar a sério o projeto do que viria a ser meu primeiro livro. É bem verdade que o conteúdo foi alterado, reformulado, reinventado com o passar do tempo. Hoje, parece estar tudo bem. Pelo menos, olhando-o chego a pensar que “taí, a hora era essa mesmo!”. E não se tem mais muito a dizer a respeito disso: é um livro de poemas e pronto. Poemas meus que dialogam com sabe-lá-o-quê, com narradores que captam vozes sabe-lá-de-quem ou de-onde. E poesia não é isso mesmo?

Montando o projeto

Pois que este é o terceiro ano do Fundo Municipal de Cultura de Blumenau. Eu, que jovem sou, descubro que é uma reivindicação de muitos e muitos anos da classe artística blumenauense. Dos iniciais 200, passou a 250 e chegou, em 2008, a trezentos mil reais, financiando projetos de onze áreas diferentes. Era de se saber, portanto, como escrever um projeto de literatura.

Numa iniciativa bela e econômica (bela pelo altruísmo, econômica por não ter de repetir dezenas de vezes as mesmas coisas), a Fundação Cultural de Blumenau ofereceu, durante cinco dias, oficinas para auxiliar na composição dos projetos. Casa cheia, por ali se encontravam produtores culturais, músicos, artistas plásticos e escritores. Por mais que rondasse o ar o espírito competitivo de cada um, podia-se perceber o propósito comum de aprender. Nas cinco noites, falou-se de contrapartida social, função social das artes e da cultura, de legislação, de prestação de contas. Enfim, praticamente tudo que se precisa, de forma geral, para concorrer a um edital público de financiamento cultural.

Tópicos anotados, surge a pergunta: e agora, o que eu faço com isso? Pois bem. Durante um mês, pelo menos, deu tempo de pensar em como o projeto poderia ser útil não só a mim, mas à sociedade. Foi dessa indagação que surgiram dois eventos-chave do Projeto Falações: uma oficina sobre poesia blumenauense, contando a sua história e investigando as suas teorias e uma mesa-redonda entre poetas que fizeram e ainda fazem a história dessa literatura. Uma boa oportunidade para dizer à academia e ao público leitor que sim, existe uma literatura oriunda de Blumenau que possui um valor teórico, que possui características populares, que o que se escreve está ligado, direta ou indiretamente à cultura da cidade, do estado, do país.

Esperando os resultados

O sofrimento começou quando um grande amigo, Pedro Dieter, que mora em Vitória-ES, com todo o carinho disponível decidiu montar a capa de Falações. Pedro acabava de chegar de Atlanta, nos Estados Unidos, com um monte de idéias novas para pôr em prática. Ótimas idéias mesmo! A melhor delas foi fazer a arte da capa utilizando a obra de um artista norte-americano que trabalha com grafite. Bom, muito bom mesmo, mas como contatar o artista?

Pedro escreveu a Justin Kauffman dizendo tratar-se eu de um amigo, jovem poeta etc. que queria publicar seu primeiro livro. Disse ter montado a capa utilizando um recorte da peça So What, que havia ficado tudo muito bonito, muito charmoso, se ele autorizava, essas coisas. Justin, muito atencioso, disse que sim, claro, como não (tudo isso em inglês) e autorizou a utilização da obra. Acontece que, ao participar de um edital, não interessa quem disse ou quem deixou de dizer: são necessários documentos comprobatórios. E é aí que entra o sofrimento.

Faltando duas semanas para protocolar o projeto, entrei em contato com Justin, explicando que precisava de um documento passado em cartório. Da mesma forma, Pedro ficara de enviar a sua própria autorização, afinal a arte gráfica era dele. No fim, quase morrendo de ansiedade, recebi as duas cartas juntas no penúltimo dia de prazo. Só não entendi como uma carta de Vitória, ali no Espírito Santo, pode demorar tanto quanto uma carta enviada de um país estrangeiro tão longe. Mas enfim.

Imaginar que seu primeiro livro pode ser publicado não é fácil. Moacyr Scliar, no texto “21 coisas que aprendi como escritor”, diz que frio na barriga e pêlos do braço arrepiando são sinais de quem um livro está pra chegar. Mas, e se não fosse? E se todo o trabalho, todos os contatos e todos os votos de confiança tivessem sido em vão? E as noites sem dormir, pensando em algo que tivesse ficado pra trás? Os sintomas eu já tinha — e já tinha também a fé dos perdidos, do tipo “claro que vai, não tem como não, a gente se vê no lançamento”. Poderia ser tudo mentira. Mas não foi.

Então, até o lançamento

Se fosse assim tão simples, o texto terminava aqui. Acontece que mesmo tendo mostrado o livro a editores, não era certo que o livro seria aceito por alguma séria. E o que eu faria com centenas de exemplares em casa? A idéia era justamente encontrar uma rede de distribuição (que em Santa Catarina não há) que levasse Falações para outras regiões. Que as pessoas que quisessem lê-lo no Rio Grande do Sul, no Paraná, em São Paulo, no Rio pudessem encontrá-lo, verificá-lo, lê-lo e até mesmo comprá-lo.

A resposta da editora, exatamente a que eu esperava, chegou outro dia. Fiquei feliz, claro. Era o último degrau de uma escada que eu havia começado a subir ainda no ano passado. Se eu liguei pra quem podia? Claro. Se eu escrevi para quem devia saber? Óbvio. Mas o resultado de tanta euforia foi mesmo um dia de cama, triste, amuado, choroso. O que havia de errado?

É estranho. De repente, quando vi, estava escrevendo mais do que devia, lendo sempre o mesmo tanto (minha mãe ainda diz que ler demais enlouquece as pessoas), estudando o quanto podia. Mas a poesia, em que canto deixei? Sinceramente, depois de ter entregado o projeto, de ele ter sido aprovado e da editora ter aceitado publicá-lo, o que eu mais queria era vê-lo longe o mais possível. Parecia que, ganho o jogo, não era mais hora de me preocupar com isso ou aquilo, mas a preocupação veio mesmo assim: e agora, o que as pessoas vão pensar?

Dizer que se trata de um livro de poemas de mau gosto coube em certo momento — e ainda cabe, porque repito todos os dias a ladainha — mas agora o meu teto será de vidro. Aquele cara que diz “olha, poesia é uma coisa bacana e isso aqui é exatamente o contrário” agora vai expor a cara à tapa. Mas faz parte do processo e, de qualquer forma, uma vez lido o livro deixará de ser meu, escrito por mim, viabilizado etc. Acontecerá, então, de eu encontrar um exemplar de Falações na estante e querer lê-lo como se estivesse lendo um outro livro de poemas de um outro autor. E quem sabe eu goste!

Quem sabe vocês gostem! Portanto, até o lançamento!

quarta-feira, 19 de março de 2008

"Quem nasce no Brasil ou é brasileiro, ou é traidor"



Calma, leitor. Antes de pensar que esta se trata de uma frase tirada de um panfleto, preste atenção: ela foi dita por Lauro Muller, catarinense, engenheiro militar e político que morreu em 1926, no Rio de Janeiro. E por que esta frase está aqui? Vem acontecendo, desde novembro de 2007 (vem acontecendo porque é em fases) o I Seminário de Língua Alemã de Blumenau. O projeto deste evento foi encaminhado ao Ministério da Cultura e acontece, hoje, graças ao Petrobrás Cultural.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Há que ficar claro aos leitores que a questão da língua alemã no sul do Brasil não é somente séria, merecedora de revisões, como também mal estudada. Na verdade, os estudos parecem ter recém começado, mas de qualquer forma faltam aprofundamentos. Pensando nisso, talvez, que o Seminário de Língua Alemã veio ao mundo.

Pra quem não sabe, boa parte da região sul foi colonizada por imigrantes europeus. Oriundos de algumas grandes frentes regionais (Alemanha, Polônia, Itália, Ucrânia), esses imigrantes não somente deixaram seus países de origem como almejavam levá-los consigo para o Novo Mundo. Foi o que aconteceu na região de Blumenau. Os migrantes que por aqui chegaram depois da metade do século XIX não somente possuíam nacionalidade alemã, como tentaram manter o espírito alemão, o deutschtum, que numa tradução imprecisa significa germanidade.

Mas vivendo num país estranho, falando uma língua estranha, ainda que em comunidade, pode se imaginar o conflito vivido por estes novos moradores da América. De um lado, traziam a esperança de, finalmente, possuírem terras, bens econômicos, liberdades política e social (que na Alemanha andavam escassas) e poderem oferecer vidas melhores a si e aos seus filhos. Por outro, ficava a saudade de uma Alemanha civilizada, de literatura desenvolvida, de pessoas que entendessem o idioma que falavam, enfim, irmãos de sangue e pátria.

O PIONEIRISMO DE VALBURGA HUBER

A respeito desse tema, do dualismo constante vivido pelos imigrantes alemães que chegaram ao sul do Brasil, ninguém pode ser melhor referência do que Valburga Huber. Doutora em Língua e Literatura Alemã pela USP, foi a primeira pesquisadora a abordar o tema da literatura teuto-brasileira (teuto, que vem de teutônico, que abrange os demais povos de língua germânica que migraram para o Brasil na época). A dissertação de mestrado que virou livro, Saudade e Esperança – O dualismo do imigrante refletido em sua literatura, é o ponto de partida de uma série de novos olhares para essa realidade do imigrante alemão em terras brasileiras.

Em Blumenau, o idioma alemão foi oficial por quase cem anos. De 1850 a 1940, o alemão era oficial tanto na mídia impressa como nas escolas e na literatura dos blumenauenses. Poetas e escritores emigrados não fizeram somente muito sucesso entre as colônias alemãs brasileiras — mesmo porque a literatura que produziam estava diretamente ligada aos fatos da imigração — como muitos chegaram a fazer sucesso na própria Alemanha do início do século XX. A esse respeito, nada melhor do que ler e se deixar apaixonar pelas obras de Valburga Huber e Marcelo Steil, este que escreve nos anos de 1990 sobre a poesia imigrante, procurar entender do que na verdade se tratava esta produção literária que era tanto alemã quanto brasileira. Se não no idioma, mas certamente no espírito.

Com as Campanhas de Nacionalização do Ensino, impostas por Getúlio Vargas, não somente se perdeu o contato com esse idioma escrito, como aos poucos ele foi sendo deixado de lado até ser quase totalmente esquecido. Pois bem. Nos anos de 1940, institui-se que o idioma oficial de Blumenau é o português. E daí? Proibiram-se os jornais, fecharam as escolas e por um bom tempo se deixou de escrever literatura.

O BILINGÜISMO PESQUISADO POR MARISTELA FRITZEN

O leitor que veio até aqui pode imaginar o trauma causado pelas decisões meramente políticas, burramente políticas, que silenciaram não somente um povo, como também emudeceram uma cultura. Da década de 1940 até as décadas de 1960/70 temos o período que chamamos “silenciamento lingüístico”. Ou seja: por vinte, trinta anos, não se falou. Ou melhor: os então descendentes de alemães que por aqui viviam tiveram de reaprender a se expressar, dominar uma nova língua, novos costumes lingüísticos; tiveram de se tornar brasileiros.

Ou não. E quem oferece a negação é outra pesquisadora que merece aplausos. Maristela Fritzen apresentou durante o Seminário de Língua Alemã partes interessantes de sua tese de doutorado. Denominada “Ich kann mein Name mit letra junta und letra separada schreiben” (Eu consigo escrever meu nome com letra junta e com letra separada), o trabalho de pesquisa de Maristela descreve as experiência de bi e multilingüismo em escolas da região de Blumenau. O que fica claro é que mesmo o silenciamento provocado pelo Estado Novo conseguiu apagar os traços mais importantes da cultura alemã no sul do Brasil: seu idioma e as pessoas que o falam.

Se no século XIX tínhamos alemães que deixaram a Alemanha em busca de uma Terra Prometida, por assim dizer, no século XXI temos uma comunidade extensa que procura ser respeitada pelo idioma que ainda fala. É verdade que o alemão de Blumenau não é o mesmo da Alemanha, mas como frisa Maristela, “o português do Brasil é o mesmo de Portugal?”. A língua é viva, pois não.

Acontece que falar o “alemão de Blumenau” não é uma questão de prestígio. Isso, Maristela explica muito bem, colocando como línguas prestigiadas o inglês, o francês, o espanhol e até mesmo o alemão gramatical, aquele estudado em escolas alemãs. O dialeto que surgiu no Vale do Itajaí, este sofre com o processo de estigmatização da língua por não ter prestígio, por estar limitado a um grupo relativamente pequeno de falantes.

VOLTANDO AO SEMINÁRIO

É preciso voltar ao I Seminário de Língua Alemã de Blumenau para terminar este meu texto. É preciso dizer que este evento tem uma importância desigual para a compreensão histórica e social do que aconteceu no Sul do Brasil nos últimos cento e cinqüenta anos. É preciso parabenizar seus organizadores por terem reunido, numa mesma fala, três dos maiores pesquisadores da língua e da literatura alemã no estado de Santa Catarina.
Mas é preciso retomar um pouco da fala de Valburga Huber. Quando lhe foi perguntado se o uso do idioma alemão na literatura (sobretudo na poesia) era uma questão de mera sensibilidade ou uma prática política desses mesmos imigrantes alemães para que não perdessem o vínculo com o país de origem, a pesquisadora busca nos poetas de língua alemã lá do século XIX uma resposta precisa: ainda que escrevessem em alemão, eles já saudavam a nova pátria, o Brasil, suas riquezas naturais etc. como pertencentes a esta terra, como seus novos moradores.

E é aqui, finalmente, que se encaixa a frase-título desse texto. Ela foi dita por um desses descendentes de alemães que lutaram pelo país para o qual migraram, o Brasil. Os imigrantes vieram da Alemanha, é verdade. Mas quem sofreu com as diretrizes políticas do Estado Novo foram os seus filhos. Se queriam, por um lado, manter contatos anímicos com o país de origem, em momento proibiram que seus filhos se tornassem “brasileiros”. Pretenderam, na verdade, manter viva a cultura, mantendo-a acesa — o que não é problema nenhum se virmos as oktoberfests que acontecem em todo o sul do país, os “vales europeus”, os grupos de danças típicas alemãs. A verdade é que o Brasil foi o país que acolheu estes imigrantes quando seus países lhes davam as costas; de alguma forma, lhes eram agradecidos.

Aos poucos, a língua alemã volta a ser pauta de discussão nos meios educacionais e políticos de Blumenau. Felizmente. Não que ainda dê para recuperar o tempo perdido durante as campanhas de nacionalização, a Segunda Guerra Mundial, a repressão com que sofreram estas milhares e milhares de pessoas. O tempo passou e as marcas estão aí. Mas que seria realmente muito bom se se reconhecesse a brutalidade que aconteceu contra brasileiros, em território brasileiro, que somente não tinham o português como língua padrão, ah, isso seria realmente muito bom. Seria, principalmente, o primeiro salto contra o preconceito lingüístico: aquele que diz que quem não fala o bom e velho (velho mesmo) português gramatical deve ser varrido das faces deste país.


A respeito deste tema, já escrevi no artigo Nacionalismo: marcas de um silêncio que persiste,
publicado originalmente no Overmundo, em 2007. Como se pode ver aqui, trata-se ao mesmo tempo de uma afirmação daquele, contendo a sua negação.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Apontamentos para uma entrevista com Werner Neuert




Escritor de Indaial mostra-se grande expoente da literatura contemporânea, ainda que sua obra não tenha sido realmente descoberta
.


A respeito de Werner Neuert, sei tanto quanto qualquer leitor que tenha tido contato com suas obras e tenha lido, nas orelhas destas, informações triviais como idade e profissão. Conheci sua escrita chocante no site do escritor Viegas Fernandes da Costa. Na ocasião, lendo o que Werner escreveu, lembro de ter sentido um misto de intensa excitação e vaga raiva. Não entendia nem um nem outro sentimento. Entendo agora. E se faço aqui apontamentos para uma possível entrevista, é porque sinto necessidade de conversar com Werner, saber quem é esse escritor, no mínimo, revoltante.

De início, é preciso dizer: Werner é um grande sedutor. Não somente seduz com sua linguagem sem rodeios, muitas vezes urbanóide, rápida e direta como também suas personagens têm sempre atos, olhares, pensamentos sedutores. E não se trata da sedução romântica a que estão acostumados os nostálgicos e aquietados. Pelo contrário: o que há de sedutor em Werner é justamente a sua contemporaneidade e a de suas criações, pessoas assustadoramente mais próximas de nós do que poderíamos supor.

Logo, lendo, deixando-se seduzir, vem a raiva, a revolta. Sim, por dois motivos: a) a genialidade de um escritor praticamente desconhecido de grande parte do público leitor que se (auto) denomina crítico e b) por escrever sem rodeios sobre tantos tabus quantos podemos imaginar que existam — claro, sempre descobrimos mais um — e fazê-lo de forma natural, clara, objetiva, ilustrando aquilo que está ali, muitas vezes na nossa frente, e não enxergamos porque somos cristãos, ou ateus, ou direitistas, ou esquerdistas, ou existencialistas, ou o quê. Mas Werner nos ensina, à força, que sempre haverá dentro de nós alguma excentricidade que não poderemos revelar a ninguém. E, quem sabe, nem a nós mesmos.

Conheço dois de seus livros. Creio que sejam os únicos dois. O primeiro, em ordem cronológica, é Do Ofício de Matar Bois. Deveria ser um livro de contos. E o que se espera de um conto? Oras, que tenha começo, meio, fim; moral da história? Nos contos de uma, duas páginas, nos deparamos com o improvável: incesto, adultério, loucura, bolinagem, patricídio (acreditam que essa palavra não existe?), suicídio, enfrentamento e pessimismo em relação ao passado. Conforme escreveu a respeito deste livro a escritora Urda Alice Klueger, o escritor “nos joga problemas e mais problemas nas mãos e, rapidamente, sai de cena, sem nos deixar fugir das realidades que deixou no palco”.

É fato: embora um ou outro escritor, nos dias de hoje, ainda consiga chocar seu leitor com palavras, muitas vezes resta uma sensação de que, na contemporaneidade, tudo já foi escrito. Talvez o que mude seja a forma de dizer. Por que não? Mas Werner não somente tem a sua própria forma de escrever — veloz, como um fugitivo; cortante, como uma faca de açougueiro — como consegue, de seu modo, reunir num livro de 70 páginas tantas aberrações sociais que não seria raro o leitor sentir um intenso mal-estar após sua leitura.

Mas de onde viria esse mal-estar? Seria, por exemplo, do contato que muitos seres humanos têm, pela primeira vez, com verdades também humanas que se escondem sob as peles de homens sociais, homens de família, homens de religião? Não seria porque, pela primeira vez, o leitor tem acesso a sentimentos escritos que talvez tenha sentido ele mesmo repetidas vezes e por saber do absurdo reprimiu-os sob sentimentos mais comuns na sociedade em que vive? São perguntas a se fazer a Werner.

Seu segundo livro em ordem cronológica, A Terra Estava Vazia e Vaga, pode ferir muito mais do que Do Ofício... Desta vez, temos uma edição dividida em duas partes principais, Histórias e Longas Histórias. Em Histórias, o que temos é uma excelente coleção de bizarrices. Na verdade, uma compilação de humanidades: falas cotidianas, coloquiais, que ouvimos, dia após dia, e às quais não damos muita atenção. Mas, tenho certeza, e o leitor também terá, de que muitas dessas falas, se não as dizemos da boca para fora, certamente as dizemos para nós mesmos, numa intimidade difícil de se chegar com a luz acesa.

Essa primeira parte da obra contém contos minúsculos, micro-contos de uma, três, cinco linhas. Ali, lemos sobre a Morte, sobre o Amor, sobre o Único Deus, o Cosmos Uno, sobre a Divina e Suprema Realidade. É, na minha opinião, o melhor dos dois. Não somente porque reúne muitas e muitas histórias breves e chocantes, como também fere mais a fundo por assumir a voz de seus falantes. Supondo, claro, que Werner escreva muito do que ouve. Perguntaria a ele: afinal, quanto daquilo é real e quanto é imaginário? Sendo a resposta "real", perguntaria: que tipo de naturalismo é esse? Ser realista, tudo bem, mas anti-ético? Anti-homem?

É óbvio que as perguntas seriam outras. O que Werner faz é radiografar - e aqui falo como sendo um leitor de Blumenau que descobriu um autor de uma cidade menor ainda, Indaial - uma sociedade silenciosa porque silenciada e nos mostrar somente as chapas. Mesmo porque nós fazemos parte dessa sociedade radiografada. E se nos assustamos, é porque vemos ali, claramente, contra a tela clara, os nossos próprios tumores.

Certamente que faria muitas perguntas a Werner. Farei, se possível, porque anseio por isso. Do que sinto falta, na verdade, é que já não tenha lido as respostas desse fantástico autor respondidas a outrem. Por acaso, nunca ninguém quis perguntar a Werner, em nome de um público leitor, a respeito de seus fazeres literários? Por que não? Por acaso, conhecem esse autor inovador que - besteira isso, de comparar - iguala-se a Dalton Trevisan, inovando-o; ri e chora com Sartre, Camus, Nizan, estes autores supervalorizados; mostra-nos, muitas vezes, o que (não quem) realmente somos e nos faz rir nervosos por ter descoberto, ter nos feito descobrir verdades simplesmente mentirosas sobre as pessoas que somos?

O dia em que a obra de Werner ultrapassar as barreiras coloniais do Vale do Itajaí e de Santa Catarina, tornará sua obra, como muitos gostam de dizer, cult. E então sua obra terá uma utilidade desigual, superior à dos livros de auto-ajuda, na descoberta, na aceitação e no entendimento daquilo que julgamos ser. E seu nome aparecerá em compêndios de literatura contemporânea como sendo o radiologista de uma sociedade doente e ciente disso, mas ignorante em relação a. E leitores e leitoras rirão da ironia destes escritos, mas no fundo sentirão alguma dor estranha, uma voz crescente que, quando for finalmente ouvida, lhes dirá, partindo deles mesmos: "Meu Deus, mas somos isto?"

Quem quiser saber um pouco mais sobre o autor, antes que eu o entreviste e procure decifrar um pouco desse escritor ímpar ímpar em terras sulistas, que leia algum dos seus livros e se deixe chocar com a sua crueldade, com a agilidade que este tem de segurar a marreta que, rapidamente, faz um boi enorme cair desconsolado. Que este novo leitor de Werner Neuert se deixe levar pelo sarcasmo e, quem sabe, comece ele mesmo a escrever na agenda, na caderneta, na lista de compras, bizarrices que ouve por aí, que pensa ele próprio, para entender que entre o real e a ficção há muito mais ligações possíveis do que as que academicamente julgamos possíveis.

Os livros de Werner Neuert são: Do Ofício de Matar Bois, publicado pela Editora Garapuvu e A Terra Estava Vazia e Vaga, da blumenauense Hemisfério Sul. Ambos fáceis de se encontrar em Blumenau, em livrarias e sebos. Portanto...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

A impressionante fala de Lauro Junkes sobre Um Cadáver na Banheira, de Maicon Tenfen


Quem, então, visita esse blog normalmente deverá se perguntar: mas será que não existe assunto para além de Maicon Tenfen? De fato, há. Não muito assunto, é verdade, porque basta que olhemos o jornal diário para perceber que muito se fala sobre pouca coisa, numa tentativa de, na televisão, preencher um horário, e no jornal, um número de páginas preestabelecidas que precisam ser entregues todos os dias.

Antes de chegar onde pretendo, preciso dizer: há assuntos. Um deles, que precisarei abordar por aqui, refere-se à Revolta da Esferográfica, que agitou três ou quatro bairros de Blumenau. Por ocasião de leitura de uma entrevista publicada neste blog, membros da Sociedade Escritores de Blumenau – SEB e outras pessoas, ditas normais, iniciaram um debate por email que durou ali umas duas ou três semanas. Muito se escreveu, muito se disse e parece que com o advento do verão – e das férias – os membros ofendidos da dita sociedade resolveram respirar outros ares; quem sabe, os do litoral. Mas disso falaremos em momento mais oportuno, porque acabou de chover, o clima é bom e a casa tem um cheiro gostoso. Noutra hora, falamos nisso. Agora não.

Outra novidade ou assunto refere-se à criação de um zine, chamado, por enquanto, de OZINE!, que deverá ser lançado em Blumenau durante os meses de fevereiro e março e que abordará, em sua primeira edição, o tema literatura, concentrando-se no Vale do Itajaí. Será uma ótima ocasião para remeter ao escritor Werner Neuert, por exemplo, o respeito que merece como brilhante e engenhoso contista, disfarçado de exímio homem contemporâneo.

Então, finalmente, ligando respeito e reconhecimento, colocamos aqui, à disposição dos leitores, um excelente texto escrito pelo crítico Lauro Junkes e publicado no Diário Catarinense no dia 29 de dezembro de 2007. Intitulado Folhetim Mirabolante, o texto de Junkes explora o já mencionado aqui Um Cadáver na Banheira, em sua terceira edição, do escritor Maicon Tenfen. No entanto, diferentemente do que se costuma ler a respeito de publicações, livros, autores etc. nos quase inexistentes espaços disponíveis em espaços midiáticos da região, a fala de Junkes é séria, comprometida e inteligente.

O respeito que devemos a Maicon — e aqui a resposta à pergunta lá de cima — tem vários motivos. O primeiro, por escrever bem. Depois, além de escrever, este autor conhece literatura e dá mostras disso. Um outro grande motivo é que este autor, que já tem sete livros publicados — e quantos no prelo? — é um autor jovem, na casa dos trinta, e que certamente continuará escrevendo e publicando e, como costumo dizer, dando rasteiras em seus leitores que ousam imaginar os descaminhos de seus escritos. E, para finalizar, Tenfen escreve a sério. E quem se dispuser a responder a estas perguntas, coladas aqui do texto que segue, escrito por Junkes (Um Cadáver na Banheira é narrativa policial? É picaresca? É pura ironia e humor? É dramalhão mexicano? É sátira a Paulo Coelho? Ou se trata de irônico retrato da realidade do escritor? A narrativa de Tenfen nos faz refletir: o que torna um livro literário? Quais as razões por que um livro se transforma em sucesso de vendagem?) perceberá de imediato: Maicon Tenfen não está de brincadeira.

A seguir, o texto de Junkes na íntegra, para que se possa ver que, de uma vez por todas, a academia pode sim prestar atenção à criação literária catarinense.


Folhetim mirabolante
O que faz um livro ser sucesso de vendagens é apenas um dos motes de Um Cadáver na Banheira, de Maicon Tenfen


Já em terceira edição, comprovando trajetória pouco habitual entre nós, Maicon Tenfen desmistifica, com Um Cadáver na Banheira (Blumenau: La Ventana, 2007), qualquer exigência de ponderação ou temática transcendente e profunda para que a obra literária mereça status elevado. Conscientemente apontado no esclarecimento ao título - Folhetim contemporâneo - , o caráter folhetinesco marca o tom da narrativa: a predominância absoluta de ação externa, em sucessão que exige fôlego resistente, o esfriamento quase total na expressão dos sentimentos, a intriga rocambolesca, o objetivo de prender e divertir o leitor e um evidente toque social de ironia e crítica.

Após um prólogo, literalmente in medias res, com o realismo e o humor da cena do cadáver na banheira, o relato compreende quatro partes. Teia de encrencas acontece em Blumenau/Vila Nova, com os protagonistas Jorge Gustavo de Andrade e Geraldine ("minha guria") refugiados em pensão, "quartinho do crime". Jorge, protagonista e narrador, tem por objetivo explodir como escritor, reescrevendo nada menos do que O Retorno do Alquimista. Aos poucos vão-se incorporando outras personagens decisivas: o cara do Passat, o travesti Bebé, acompanhados de ameaças e confusões, e ainda o Calinho de Witmarsum. Detalhes realistas ressaltam a significação dos obstáculos que se avolumam, a preocupação com a grana escondida, a desqualificada fauna humana dos moradores da pensão, o seqüestro. Os sonhos e pesadelos de Jorge se revestem de tonalidades melodramático-psicanalíticas.

A segunda parte, de forma analéptica, retorna a Os Acontecimentos de Witmarsum, que antecedem e desencadeiam a situação da parte anterior. Delineando traços picarescos que compõem o seu caráter, Jorge retorna ao momento em que, aos 31 anos de idade, é expulso de casa pelo pai, por não querer se "aviltar como trabalhador assalariado", decidindo "realizar o sonho infantil: seria escritor, mas um escritor milionário". Lances mirabolantes acompanham todo o seu trajeto, de Rio do Sul a Ibirama e a Witmarsum, onde é admitido como professor e se hospeda na casa de seu Lourival, pai das meninas gêmeas Geraldine e Jaqueane. Dormir é que se torna problemático, devido à "ninfeta despudorada". Envolvido pelas filhas do Lourival, e porque este "banhava-se em dinheiro", vislumbra maneira de realizar seu sonho de tornar-se escritor. O picaresco plenifica o folhetim.

A terceira parte - O Seqüestro - retoma o final da primeira parte, já com o cadáver na banheira. E "minha guria" exacerba sua confusão ao declarar: "Eu não sou a Geraldine", cientificando-se ele que as duas gêmeas haviam trocado de identidade. Mas o pai da mesma está ali, à porta da pensão, para exigir satisfações de tudo que acontecera. Agora Geraldine/Jaqueane, que está grávida, é seqüestrada. Sucedem-se cenas de suspense, até mesmo desaparecendo o cadáver da banheira. A decisão de Jorge, porém, não se curva: "Nem a polícia me impediria de publicar meu livro, de recuperar minha mulher e assistir ao nascimento do meu filho". No cerco dos policiais, sente "confirmado: meu passe de viagem não tinha validade para retorno". Toma todas as providências para publicar o livro e para salvar "minha guria", ponderando o perspicaz personagem-narrador: "Bonnye e Clyde? Lampião e Maria Bonita? Não, Jorge e Jaqueane, os foragidos do Verde Vale". À pergunta desta: "Você ainda me ama, Jorge? Ainda ama nosso filho?" (após ela ter sofrido o ataque do tarado do passat), até o pícaro amolece: "Com essa também chorei. Mas dei um jeito de chorar escondido".

Finalmente na quarta parte, A Grande Noite, acontece a apoteose do "escritor", com o lançamento do seu livro, que faz entrar em cena o escritor José Endoença, e explicita a agudeza crítica (lembre-se Paulo Coelho): "Marketing, apenas marketing. O que vende não é qualidade, nunca foi. E quanto mais grotesca e apelativa, melhor". Segue-se, ainda, um "pós-lúdio", que concretiza mais acirradamente a intenção crítica do autor.

A técnica de relato em retrospectiva é lucidamente assumida já nas palavras iniciais: "Algumas semanas antes do momento crítico, começamos a morar no quartinho do crime". Versatilidade e fluência do narrador merecem destaque especial. Definir-se-á no relato algum momento "sério", alguma atitude ou retrato de ponderação? O leitor implícito criado pela narrativa não condiz com pessoa "séria", com leitor que exija tratamento de grandes e respeitáveis temas, com ações edificantes. Quem não estiver disposto a suspender toda a ferrenha racionalidade lógica, que tanto nos domina, não abra o livro. Ou o leitor se deixará guiar pela descontração da ironia, ou deixará a leitura de lado. Irresistível se impõe o fluxo ininterrupto da ação, dos acontecimentos, sucedendo-se suspenses, instigantes impulsos, que impedem interrupção de leitura.

Não obstante todo o caráter folhetinesco, picaresco, irreverente e irônico, impõem-se algumas imagens de bela criatividade. Na decisão inabalável de proteger e salvar a criança, quando "minha guria" estava grávida, toda a truculência violenta se contém: "Acontecesse o que acontecesse, eu ainda a teria em meus braços, provaria o açúcar de seu sorriso e de sua alegria..." Quando sente os policiais fechando o cerco, pondera: "O diabo soprava as faíscas do pavio, queria que o foguinho chegasse logo ao barril de pólvora". Mas o narrador irreverente não perde o estilo, mesmo em meio às enrascadas: "Um silêncio atroz me abateu por segundos, a perna curta da mentira chutava minha bunda". No entanto, após ter recuperado Jaqueline, o pícaro se emociona: "Também matei a saudade de Jaqueane (começava a me acostumar com o novo nome), bombardeando seu preciso ventre com uma inesgotável artilharia de carinhos".

Um Cadáver na Banheira é narrativa policial? É picaresca? É pura ironia e humor? É dramalhão mexicano? É sátira a Paulo Coelho? Ou se trata de irônico retrato da realidade do escritor? A narrativa de Tenfen nos faz refletir: o que torna um livro literário? Quais as razões por que um livro se transforma em sucesso de vendagem?

LAURO JUNKES Presidente da Academia Catarinense de Letras

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Um Cadáver na Banheira: sobre o livro e seu autor


Quando comecei a escrever sobre literatura blumenauense aqui neste blog e depois no sítio Overmundo, tive a felicidade de encontrar interlocutores com quem pudesse conversar a fim de compreender melhor a literatura localizada em Blumenau. Expondo a história dessa literatura em breve texto, para dali tentar compreender a dicotomia temática proposta por José Endoença Martins, buscando ver de cima a produção poética dessa cidade ou ousando interpretar o trabalho do poeta marginal Douglas Zunino, percebia que em algum momento deveria falar sobre Maicon Tenfen, o escritor. A hora é essa.

Maicon Tenfen é natural de Ituporanga, interior agrícola de Santa Catarina. Em 1996, quando ainda cursava Letras na Universidade Regional de Blumenau, publicou sua primeira novela. Entre a Brisa e a Madrugada, até então, era somente a publicação de um jovem aspirante a escritor. A seu respeito, escreveu Urda Alice Klueger:

“Em 1996 chegou-me às mãos o livro Entre a Brisa e a Madrugada, de um autor do qual nunca ouvira falar. Na primeira folga que tive, dei uma “olhadinha” no livro, e quedei-me pasma desde as primeiras páginas: ali estava um grande livro, extremamente bem escrito, que me levou de roldão na sua leitura, e que só consegui largar depois de lê-lo até a última linha.”

Tenfen publicou ainda as novelas Um Cadáver na Banheira (1997) e O Segredo da Montanha (1998). Em 1999, Tenfen publica seu primeiro livro de contos, O Impostor e, numa ascensão literária, publica em 2000 o romance O Filho do Feliciano, considerado pelo autor sua obra de maior fôlego. Na mesma linha de O Impostor, Tenfen publica, em 2002, Mistérios, Mentiras e Trovões, que então pode ser lido como novela de suspense ou livro de contos. O último livro publicado é Mania de Grandeza e Outras Crônicas, publicado em 2002 e que reúne parte das colaborações deste autor para o Jornal Diário Catarinense, de Florianópolis.

Dos sete livros publicados, um deles pode ser chamado de especial. Um Cadáver na Banheira faz parte de uma lista muito pequena de livros publicados em Blumenau e que tiveram sucessivas reedições. Pois que Um Cadáver chega agora à 3ª. Edição – com revisão definitiva feita pelo autor. A novela, além de manter o leitor tenso até a última linha, é muito mais do que um livro de suspense. Ou melhor, é um bom livro de suspense e isso quer dizer muito.

A verdade é que a ficção de enredo (aquela que se preocupa em contar bem uma história) é muitas vezes mal interpretada pelos intelectuais e pela academia. Esquecem-se, primeiro, que é a ficção de enredo a principal responsável por captar leitores para o mundo da literatura. Depois, por mero preconceito (muitas vezes, a academia taxa de malditos dinheiristas os autores de ficção que não estão lá muito preocupados com as dores da existência ou o sentido da vida pós-moderna), muitos livros de ótima qualidade não conseguem alcançar o devido espaço entre as “elites intelectuais” e a academia, sendo taxados, burramente, de subliteratura.

Acontece que quem não deu atenção à escrita de Maicon Tenfen, perdeu o surgimento de um dos maiores escritores da atualidade oriundos de Santa Catarina. No início, Tenfen foi classificado como um autor de literatura infanto-juvenil. Isso rendeu ao escritor dezenas e dezenas de visitas a escolas, onde seus livros eram lidos e discutidos na presença do autor. Depois, muitas destas crianças leitoras cresceram e continuaram acompanhando a literatura deste blumenauense que cada vez mais passou a figurar como nome importante na literatura do estado catarinense.

Além de o relançamento de Um Cadáver comemorar os primeiros dez anos da primeira edição, este livro está aqui para trazer à tona os caminhos percorridos por seu autor nos últimos anos. Com um livro no prelo para ser lançado em 2008 — a que tivemos acesso — percebe-se o quanto a escrita de Tenfen cresceu desde O Impostor. No entanto, Um Cadáver não é daqueles livros que os autores escrevem e que renegam depois de um tempo. Há ali muito que ser lido ainda hoje.

PRÉ-LANÇAMENTO

Numa atitude até então inédita, Maicon Tenfen reuniu, no dia 26 de setembro, representantes da imprensa local e pessoas interessadas em discutir literatura. Num bate-papo de quase duas horas, o autor reapresentou Um Cadáver e explicou o porquê de um pré-lançamento: “Acontece que quando o livro é lançado, as pessoas vão ao lançamento, um ou outro amigo até compra o livro e depois não se fala mais nele.” De fato, o que levou o autor a reunir estas pessoas foi a vontade de quem escreve de ver sua literatura sendo comentada, discutida, criticada.

Na reunião, Maicon explicou que considera Um Cadáver um livro que não foi bem lido. Questionado a respeito disso, o autor explica que, quando começou a publicar, por ser jovem e escrever em prosa, muitas pessoas o liam por simpatia. “O menino tá publicando, vamos ajudar comprando um exemplar”. Depois, o livro caiu nas mãos de professores e alunos de escolas catarinenses, mas nunca foi efetivamente criticado enquanto obra literária, enquanto produto literário. Em parte, por Santa Catarina não ter mesmo tradição de escritores e críticos desses escritores. Depois, por se tratarem de histórias de suspense que, como dito acima, não recebem lá muita atenção do público leitor acadêmico.

Acontece que o jovem escritor de novelas de suspense cresceu, assim como cresceu sua literatura. Doutor em Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina, o professor Maicon Tenfen pode analisar sua obra com olhos críticos de quem entende melhor o que faz. Se por um lado o conhecimento acadêmico pode atrapalhar a produção instintiva de um escritor, por outro pode dar à obra leituras que vão além do mero significado das palavras. Pois foi dessa forma que Maicon Tenfen explicou que muito do que está escrito em Um Cadáver era, à época de sua publicação, somente intuição, um “querer dizer” alguma coisa. Quem lê este livro hoje não é mais o jovem escritor, mas um doutor em literatura e professor universitário que afirma ter conseguido passar a mensagem que pretendia.

Tenfen, além de um grande escritor, tem colaborado de forma significativa para a literatura produzida em Santa Catarina. Além de fazer parte de um grupo pequeno de “escritores que escrevem bem e conseguem publicar suas obras”, o escritor blumenauense mostra que se pode profissionalizar a publicação de livros. Afinal, que rumo pode tomar uma produção literária que se é escrita não é publicada, se é publicada não é distribuída? Pois que além do relançamento de Um Cadáver na Banheira marcado para o dia 23 de outubro na abertura do II Encontro de Estudos e Pesquisa em Língua e Literatura, Maicon Tenfen adianta terá o livro distribuído nas principais livrarias de Santa Catarina e negocia a distribuição em outros nove estados: Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Tocantins, Bahia, Ceará e Amazonas. O livro também estará à venda nos sites Submarino e Cultura. Pois como o próprio autor diz: “A meu ver, não adianta mais fazer livros pelo simples prazer de termos um nome estampado na capa, é preciso distribuí-los, eis a razão da nova edição.”

UM CADÁVER NA BANHEIRA – O LIVRO EM SI

Literatura de enredo é aquela em que o que realmente interessa são as idas e vindas de personagens, a forma como a história nos faz segui-la atrás de um gran finale, em busca de um desfecho interessante. Poderíamos assimilar como sendo parecido com cinema americano, aquele filme de suspense que assistimos curiosos, esperando para saber que fim terá o assassino, o rapaz que foge do monstro, a mocinha que matou o namorado. Em se tratando de literatura, a análise se torna um pouco mais complexa, mesmo porque falamos de escrita e leitura, onde o leitor faz parte da história, é o seu personagem oculto.

Um Cadáver na Banheira tem muitas pretensões. Ao mesmo tempo em que narra a história por vezes trágica, por vezes cômica do aspirante a escritor Jorge Gustavo de Andrade, também critica o mercado editorial dos interiores do país. Da mesma forma, assim como procura divertir e capturar o leitor para dentro da história (a história é principalmente ambientada em Blumenau, o que familiariza facilmente o leitor daqui), levanta uma série de questões sobre a própria literatura contemporânea. Parece que a academia intelectualizada não deu a devida atenção, não é? Mas sempre é tempo de recuperar a importância de uma obra.

Um livro de leitura dinâmica e instigante como este precisa de pelo menos duas leituras. A primeira, aquela que fazemos baseados em verdadeira ansiedade, almejando encontrar o desfecho o quanto antes, pode fazer com que passem despercebidos momentos importantes, de beleza literária, de conteúdo escondido entre um parágrafo e outro, uma linha e outra. Na verdade, pode se ter certeza de que várias leituras de Um Cadáver na Banheira voltarão a ser feitas. E que estas leituras digam muito mais sobre este livro e sobre este autor.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Maicon Tenfen e Carlos Henrique Schroeder discutem o romance contemporâneo.

Pois que está acontecendo em Blumenau a Feira do Livro. Sobre este assunto, gostaria de poder escrever mais tarde e especialmente sobre ele. No entanto, é necessário dizer que alguma utilidade cultural teve. E foi na mesa-redonda com romancistas catarinenses que a Feira do Livro de Blumenau, mesmo depois de quatro dias acontecendo, tomou corpo finalmente.

Integraram a conversa os autores Maicon Tenfen, de Blumenau e Carlos Henrique Schroeder, de Jaraguá do Sul, mediados pelo historiador e escritor blumenauense Viegas Fernandes da Costa. O terceiro participante, Rodrigo Schwartz não pôde aparecer. Sob o tema Romance Contemporâneo, os dois escritores debateram não somente o gênero literário, mas também mercado e projeto literário, aquele que permite ao aspirante a escritor sê-lo ou procurar outra coisa para fazer.

Sobre os dois escritores, é preciso apresentá-los.

Maicon Tenfen, de 32 anos, é natural de Ituporanga, no interior catarinense. Doutor em Literatura pela UFSC, leciona Literatura Brasileira na FURB, em Blumenau, e tem oito livros publicados. Contista de fôlego, Tenfen é quem nos tira o fôlego com suas histórias de suspense em que o inusitado beira o previsível. Na região, é bonito comentar sobre o escritor e receber de resposta um “Eu já li!”, comentário tão caro a autores blumenauenses. Sem dúvida, Tenfen tem grande responsabilidade no enaltecimento da literatura local e do gosto por ler que provocou em centenas de estudantes com suas histórias.

Carlos Henrique Schroeder, 31 anos, é natural de Trombudo Central, no Alto Vale, e agora vive em Jaraguá do Sul. Com A Rosa Verde, seu mais famoso romance, Schroeder conta a história do movimento integralista e suas ações, tendo como pano de fundo a Jaraguá dos anos de 1960. Se formos pensar na importância de se ter um romancista e/ou contista de peso numa região em que a literatura mais consumida é a das dicas de Veja, o que se pode dizer de quem ainda ousa fazer, através da literatura, o resgate histórico de uma época sombria e pouco lembrada como a que antecedeu a ditadura militar no Brasil.

SCHROEDER

A fala de Schroeder beira o intimismo. Ao falar sobre o Romance Contemporâneo, apresenta seus livros falando do leu primeiro, quando ainda guri. “Comecei por Camus, Kafka... Não comecei lendo poesia, como a maioria das pessoas. Leio romances desde os 12 anos“.

Teorizando, Schroeder explica que existem dois tipos de romancistas, os de enredo e os de linguagem. Sobre isso, o escritor explica que há romances que tentam conquistar o leitor através de palavras, de como elas chegam ao leitor, de como dizem o que se poderia dizer de outra forma, mas dizem de forma rebuscada. Quanto aos romancistas de enredo, estes estão mais preocupados com os fatos, com o decorrer da história: a surpresa, a curiosidade, o suspense. “O bom escritor tem que ter dos dois; precisa ser tão bom na linguagem como no enredo que ele leva para o leitor”, diz o escritor. E em relação aos diversos escritores que surgem de tempos em tempos, Schroeder argumenta: “Só vão ficar os escritores que tiverem um projeto de literatura”.
Ou seja: fica por cima o escritor que escreve o que sabe que está escrevendo e consegue passar isso ao seu leitor.

Colocando na prática sua fala sobre os tipos de romance, Schroeder explica os dois livros que tinha em mãos durante a conversa. Enquanto para escrever Rosa Verde precisou do apoio de uma folha A3 (onde desenhou o mapa do enredo), em Ensaio do Vazio mistura a linguagem neo-barroca com linguagem contemporânea. “É um livro para escritor ler”, diz ele, contrapondo a densidade literário de Ensaio do Vazio à tensão de Rosa Verde.

TENFEN

Maicon Tenfen, pela natureza acadêmica, tratou de ser mais didático, por assim dizer. Citando romancistas catarinenses, inclui numa lista de importância os nomes de Dionísio da Silva, Cristóvão Tezza, Godofredo de Oliveira Neto, Urda Kluger...
Apontando para Flaubert e seu Madame Bovary, Tenfen coloca esta obra francesa como de primordial importância para se entender o romance contemporâneo. “Qualquer romance que se leia depois de Madame Bovary tem alguma semelhança, ainda que inconsciente, com este livro”. Flaubert mudou o rumo da literatura ao colocar no papel (na época, quem lia romances eram as senhoras burguesas) os podres da burguesia francesa. Dali em diante, o romance nunca mais foi o mesmo.

No entanto, Tenfen atenta para as dificuldades que o romance contemporâneo enfrenta. Tanto ler — mas principalmente escrever — um romance é um grande investimento. Investe-se tempo, investe-se emoção e o retorno... “Não há retorno, senão o aprendizado; quando você lê, você aprende e quando escreve é isso ao quadrado”.

Para explicar a diminuição do interesse pelo gênero romance, Tenfen cita Moacyr Scliar, para quem a tendência da literatura é diminuir de tamanho — basta perceber os últimos livros de Scliar, que envolvem da mesma forma, mas não são mais tão grandes: vivemos na modernidade de um mundo que nos exige tempo o tempo todo.

A CRISE OU A HORA DO ROMANCE?

Quando é aberto o espaço para perguntas, essa questão aparece melhor. Afinal, a literatura está em crise e estaria em crise o romance? Para Schroeder, o que está em crise é a “mídia romance”, o livro em si, que tem perdido cada vez mais espaço para outros meios midiáticos, como o rádio, o cinema, a televisão. É mesmo difícil para uma forma de comunicação tediosa (no que diz respeito a não falar, não se mexer etc) competir com o fluxo de informações que os eletroeletrônicos são capazes de transmitir.

Tenfen vê de outra forma. Demonstrando, da mesma forma, a imersão do ser humano contemporâneo na Informação ou na quantidade de informações, o escritor mostra que os grandes romances ou as grandes épocas para esse gênero literário foram momentos de crise. Sendo assim, “se o romance reflete uma sociedade em crise, esse é o grande momento do romance. Surgem grandes romances porque a crise é profunda”.

UMA FEIRA DO LIVRO VAZIA

Uma professora de Ensino Médio questiona com os dois escritores a ausência de interesse por leitura e de pessoas na visitação à Feira do Livro de Blumenau.
Schroeder causa alvoroço ao livrar o Estado de responsabilidade. Para o escritor, o que “falta iniciativa da sociedade civil”, lembrando que a educação vem de casa, embora não tenha sido criado num ambiente de leitores. Tenfen sugere que tem que se trabalhar por um ambiente propício à leitura e cita o PROLER como um bom exemplo de trabalho junto a professores e alunos. “No entanto, o PROLER é direcionado para o Ensino Fundamental, mas que tipo de trabalho se faz com o Ensino Médio?”. O escritor e professor lembra que nas séries iniciais do Ensino Fundamental é realizado um trabalho de incentivo a leitura que perde toda a força com a chegada da puberdade: “Nesse época, o nível de leitores chega a zero”. Para Maicon Tenfen, é necessário que seja feita uma transição entre as leituras da infância para a puberdade, e que esta transição sirva de ponte entre os dois períodos, a fim de não se perder leitores.

AFINAL, AS VENDAS AUMENTARAM

Como última pergunta para fechar esta conversa de quase duas horas, um espectador faz a ressalva de que existe boa literatura sendo comercializada, que existe fomento e que há a Internet a fazer o seu papel.

Schroeder, em contraponto, mostra que as vendas aumentam porque a população aumenta — e hoje o número de pessoas alfabetizadas é maior do que, por exemplo, no século XIX. No entanto, a crise se vê não somente relação escritor x mercado, mas também na relação com a própria literatura. “Tem-se escrito muita coisa ruim por aí”. No que diz respeito à Internet, Schroeder questiona o valor da Grande Rede. “A Internet somente serve para o mercado, não para a Arte”.

Sua fala é contraposta pela fala de Tenfen, para quem a Internet tem a grande propriedade de permitir que escritores que não conseguem espaço no mercado editorial possam mostrar seus trabalhos e seus nomes.

Com o fim da conversa entre os autores, o que ficou foi uma enorme sensação de saciedade. São raros, por aqui, os debates abertos entre escritores. Este só conseguiu público porque estiveram presentes alunos de Letras da FURB e um ou outro escritor agremiado de alguma instituição literária blumenauense. No mais, às 21 e pouco, quando se findava a interessante e rica conversa, já nem todos compunham a platéia.

Se a Feira do Livro de Blumenau tomou forma, foi nesta noite, quando a Literatura passou a ter o devido destaque. Ninguém melhor para falar sobre o livro do que alguém que tem o contato mais direto com esse objeto instigante. Ninguém melhor do que quem os escreve. Maicon Tenfen e Carlos Henrique Schroeder sem dúvida sanaram dúvidas e elucidaram um ponto importantíssimo: existe uma literatura contemporânea sendo produzida em Santa Catarina que, apesar dos pesares, vai muito bem, obrigado!