quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Destes tempos em Aguardo

DE COMO UM ESCRITOR CONSEGUE, A PARTIR DE SUA REALIDADE, DECODIFICAR O MUNDO E O HOMEM

Há algumas questões acerca da Literatura que merecem respostas, embora se vá discutir toda uma vida a respeito do que é ou não é um texto literário, se o poema tem ou não poesia, se o romance chega ou não ao seu objetivo, que também é algo a se discutir: qual o objetivo de um romance.

Numa mesa-redonda acontecida em agosto deste ano, cujo tema era a poesia blumenauense, dois de seus participantes defenderam que em tempos de pós-modernidade tecnológica não se pode mais falar sobre um texto de aqui ou acolé. Dessa forma, portanto, não poderíamos determinar um texto através do lugar onde ele é escrito. Um dos participantes, José Endoença Martins, defendeu o lugar de origem do texto, de modo que sua localização pode determinar sua importância para os leitores daquele local de origem. Pois bem, aceito essa visão para continuar a escrever este texto.

Para quem já tinha assistido às peças de Gregory Haertel, seu romance talvez tenha sido menos doloroso. Mas acredito que poucos tiveram, até então, a oportunidade de ler Haertel. Muitos de nós assistimos às suas personagens mergulhadas nas próprias dores, cientes ou não de suas insanidades. Assim, parece redundante querer escrever sobre como Aguardo, o primeiro romance do autor de peças como A Parte Doente e Volúpia, pode remexer conceitos e estômagos. No entanto, é preciso falar a respeito.

Aguardo desestrutura. Sua própria estrutura narrativa, assemelhando-se ora a uma novela, ora a um livro de contos, o torna uma obra singular. Mas não é somente a estrutura do texto e sua belíssima composição que agradam. Pra quem espera mais, lá está: Haertel, escrevendo sobre sua cidade imaginária, com personagens imaginárias (ou não, claro está) ao mesmo tempo em que desconstrói o mito há muito tempo enraizado, por estas bandas, de que nosso passado é belo, indolor, e nosso presente é fértil, também conta uma bela história para ser lida em qualquer canto do mundo.

“Não obstante toda dor, há sempre o que piorar”, escreve Pépe Sedrez na orelha de Aguardo. De fato: se há um consenso a respeito do sentido de escrever e ler literatura, este se encontra na capacidade de a) o autor, a figura alienígena da sociedade, conseguir pôr em palavras o que o incomoda e b) o leitor, necessitado de um ponto de vista ficcional, procurar uma saída na literatura. Literatura sem dor, portanto, o que seria? Aguardo é incômodo, é não saber se situar entre personagens, entre os rumos indevidos (porque tão reais e necessários) que a história toma e, sobretudo, não querer se encontrar nas páginas do romance.

É aqui, então, que volto a uma das primeiras questões deste texto. Ouso, para isso, citar este romance Aguardo, de Haertel, como a obra que a prosa blumenauense necessitava para se sentir, de fato, literatura. Indiretamente ligado a um passado fértil da prosa ficcional, que tem origem, principalmente, no texto de Urda Kluger — e mais recentemente na obra policial de Maicon Tenfen — Gregory aponta para um futuro promissor na literatura. O que não quer dizer que este autor prometa, porque mais cumpre do que realmente promete; mas que, de certa forma, Aguardo tem o poder de, ao mesmo tempo em que mira diretamente para as origens de seu autor, afastar-se dessas mesmas origens para justamente evitar qualquer tipo de descrição inglória: sua literatura não é daqui, não é dali. É literatura e é boa.

Encontrando-me com e enfrentando as personagens de Haertel, não consigo parar de pensar em dois autores franceses que admiro muito. De um lado, Camus denuncia o absurdo do homem e da sociedade ocidental do século XX a partir de histórias cotidianas, sempre tão bem metaforizadas que — hoje se vê — não importam as localizações geográficas e culturais de seus leitores: o absurdo não tem idioma. Justaposto a este, Nizan aproveita-se de uma viagem à cidade de Aden, no Iêmen, para denunciar a sociedade francesa e, mesmo que depois de trinta anos, ser um dos principais inspiradores da revolução cultural causada pelo Maio de 68.

Se não dou pistas de onde Aguardo chega e de onde sua leitura nos leva, é para não tirar do leitor a oportunidade de ler um romance que há muito era aguardado. E que finalmente chegou.

11 comentários:

Dover disse...

Mas quisera, comentarista, o autor, a dor porque doendo atingi mais o leitor? De dor e remorso o mundo sempre esteve cheio, mas poucos conseguiram por meio de relatos provocá-la.Por hora,posso apenas me referir aos comentários - como aquele que morreu depois que contaram-lhe sobre o tiro -,e sentir a dor que é estar longe do amigo.

Rodrigo Oliveira disse...

Muito bom ver novas postagens por aqui. Sempre é bom ver Falações a gerar falações. E taí mais um que descobri através daqui.

Marina Melz disse...

Me deu vontade de ler.

liah disse...

achei muito interessante essa tal Haertel... ja estou pesquisando ;D
saudade, querido amigo

Nestor Jr disse...

Faz jus ao romance - que ainda estou a ler...
:?)

Bueno, bueno!!!

Labes disse...

Ôpa! Fazia tempo que não aparecia tanta gente por aqui ao mesmo tempo. Gracias. Espero que leiam Aguardo, que como disse ao Costadessouza, é um livro que não só merece, mas que precisa ser lido. E depois a gente discute, né! Caiam de pau, elogiem, mas digam algo a respeito. Só assim, gente, se chega a algum lugar e a gente consegue sair do amor com dor amor com flor.

Grandes abraços!

fabioricardo disse...

hum, deu sede.

costadessouza disse...

Sigo lendo. Demorei demais pra terminá-lo, talvez, ou o suficiente pra poder me emocionar com ele.

Lorreine Beatrice disse...

Marcelo, concordo com tuas palavras.
Só agora li Aguardo e já estou com vontade de reler.
É bonito como a narrativa revela, aos poucos, cada personagem (mesmo quando não se lê na sequência de capítulos/contos proposta pelo livro); como as histórias 'individuais' se perpassam...
Vale a leitura, com certeza.

Labes disse...

Lorreine, muito boa a tua visita por aqui. De fato, Aguardo impressiona. Se pela narrativa contemporânea, se pelo anacronismo relutante da critica à humanidade, este é sem dúvida um romance-marco no que chamamos literatura daqui.
Abraço.

Anônimo disse...

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